Entrevista: Karla Patrícia Demuner

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“Não olhe para a deficiência, olhe para a EFICIÊNCIA.”  A frase é da atleta paralímpica Verônica Hipólito, hoje comentarista dos jogos paralímpicos a um canal de tv, mas poderia ter sido dita pela colega Karla Patrícia Demuner.

Pouco depois do nascimento, Karla foi diagnosticada com a síndrome de Ellis-Van Creveld, doença genética rara. Até 2003, o número de casos no mundo não chegava a 200. A principal característica é o tronco longo com encurtamento de braços e pernas. A doença também costuma afetar o coração. E, ainda na infância, Karla se submeteu a uma cirurgia, também operou os dedos das mãos. Os médicos alertaram a mãe sobre as poucas chances de sobrevivência, mas dona Paulina sempre soube que a filha resistiria e ainda iria dar-lhe muito orgulho. E o coração de mãe não se enganou.

Conseguimos conversar com Karla numa sexta-feira. Na mesma semana, havia concedido uma entrevista para uma rádio, participado de um programa no YouTube e feito um discurso na Câmara Municipal de Venda Nova do Imigrante. Tudo por conta da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência.

Sua voz tem a tranquilidade de quem cultiva a reflexão. Quando fala, gera admiração. Uma sabedoria que o passar dos anos – hoje está com 43 – só fez lapidar. Desde cedo, buscou autonomia e independência financeira. “Minha arma era o estudo, percebi muito cedo que, na iniciativa privada, eu não teria oportunidade.”

Formada em Direito, entrou para o TRT, em 2003, e foi lotada na Vara de Cachoeiro de Itapemirim. Em 2007, conseguiu transferência para a Vara de Venda Nova do Imigrante. “Era encantada pela região”, conta a capixaba nascida em Vila Velha.  Na Vara, tem um mobiliário adaptado. Ela faz questão de registrar sua gratidão ao diretor Vitório, ao juiz Paulo Politano e a todos os colegas, pelo acolhimento, e à Administração, pelas boas condições de trabalho.

Sua casa tem pouquíssimas adaptações. Ela mede 1,35 m e consegue fazer praticamente todas as tarefas domésticas sozinha. Vez por outra, precisa da ajuda do marido  para pegar algo no congelador, por exemplo. Estão casados há seis anos. Marcelo era viúvo e entrou na sua vida trazendo duas meninas. Karla também já era mãe de Sofia de outro relacionamento. “Eu adotei as meninas, e elas me adotaram.”, resume. Com Marcelo, teve Otávio, hoje, com 5 anos.

“A deficiência me escolheu duas vezes”, afirma a colega ao nos contar sobre o filho. “Quando resolvi ser mãe, fui a um geneticista, fiz vários exames, tinha medo de ter um filho com a minha síndrome. A hipótese foi descartada, e aí Otávio nasceu com Down, que pode acontecer com qualquer um, não há relação.”

Cuida  do menino com o exemplo de sua própria criação: determinada a inseri-lo totalmente na sociedade. Para isso, não mede esforços.  A programação com ele é intensa. As semanas começam com uma viagem a Pedra Azul, onde o filhote faz equoterapia, um tipo de atividade com cavalos para estimular o desenvolvimento da mente e do corpo. Nos outros dias, há musicoterapia, fonoaudiologia, fisioterapia, enfim, seu tempo é tão ocupado que seu “sonho de consumo” é assistir a dois episódios seguidos de uma série preferida, mas não consegue, sempre há algo a fazer. Afinal, são quatro filhos, Sofia, Mayara, Maiane e Otávio, um gato, um cachorro. E ela não descuida nem da horta e nem do jardim da casa.

Membro do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, a colega luta por uma sociedade mais igualitária, que pare de olhar para o deficiente como um incapaz porque não está dentro de um padrão. “Isso vale para todo tipo de preconceito”, pontua.

“Eu sou bem resolvida”, revela. “Aprendi a me blindar de olhares preconceituosos. A única pessoa que pode me fazer infeliz sou eu mesma, se meu olhar me condenar. E eu nasci para ser feliz.”

Conversar com Karla é uma prazerosa lição de vida, mas é também confirmar o quanto há por fazer para que sejamos uma sociedade mais igualitária, mais eficiente. Essa missão deve ser de todos nós.

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