Entrevista: Isadora Belicchi

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Por Martha Gonzalez

“O primeiro sutiã a gente nunca esquece”.

A frase é de um dos comerciais mais premiados da publicidade nacional. A propaganda é antiga, mas sua mensagem atual: o momento quando a menina se vê mulher costuma ser envolto de magia.

Mas, nem sempre é assim. Nossa colega Isadora Belicchi foi batizada Claiton. Somente aos 22 anos comprou seu primeiro sutiã. Um tratamento hormonal lhe dera seios, mas ainda usava roupas masculinas.

Entrou numa loja de lingerie sem ter ideia das medidas envolvendo a compra de uma peça tão íntima. Com ou sem bojo? Decotado ou nadador? Com ou sem aro? Rendado ou básico?

Envergonhada, experimentava rápido tudo entregue pela vendedora. Resultado das compras apressadas: um aperto sem fim. “Me doeu as costas um bom tempo. Impossível esquecer.”

Desconforto com o próprio corpo: essa é uma sensação conhecida dos transexuais. Com ela não foi diferente. Isadora é a oitava filha de Dona Maria e Seu Oreste. A caçula, desde cedo, percebia seu corpo não se encaixar com sua personalidade, mas teve medo da reação dos pais religiosos. Somente após a morte deles, começou sua transformação:Não nasceu mulher; tornou-se mulher.

A colega veio redistribuída do TRE de Goiás para nosso Regional em 2011. Quando chegou, ainda era Claiton. Começou trabalhando no antigo Secap. Em 2017, foi secretariar audiências na 13ª Vara do Trabalho.

Sua transformação foi planejada e começou com o laser no rosto, para eliminar os pelos. No final de 2018, resolveu a mudança de nome e de gênero no Cartório da Cidade de Boa Esperança, no Noroeste do Estado do Espírito Santo.

Comemorou sua nova identidade colocando prótese nos seios. A cirurgia foi em novembro. Houve o período de licença, o recesso de final de ano e, quando voltou, em janeiro, estava maquiada, trajando um vestido florido.

A então titular da Vara, a magistrada Alzenir de Plá Loeffler, chamou sua equipe e anunciou em voz alta. “A partir de agora, vamos chamá-la de Isadora.” Todos foram receptivos e carinhosos, revelou a colega.

O incômodo viria na hora de assinar as atas. Isa falava, vestia-se, comportava-se como mulher, mas assinava Claiton. Com seus novos documentos, pediu a retificação ao Tribunal. Desde então, ela é Isa no andar, no falar, no sentir e ao assinar.  Hoje Isa dá expediente na 3ª Vara do Trabalho.

Isadora destaca que sua maior identificação com o feminino é o olhar de cuidado que as mulheres têm com todos os seres humanos. “Eu levo isso para o meu dia a dia, me preocupo com o bem-estar de quem está a minha volta.”

Diferenças do mundo masculino para o feminino? Isa aponta vários aspectos, da propagada sensibilidade das mulheres a questões mais comezinhas. “A primeira vez num banheiro público feminino foi no aeroporto. Descobri um espaço limpo e organizado. O dos homens é uma bagunça” — entrega.

Viajar é uma das coisas de que mais gosta. O Velho Mundo é seu velho conhecido. Sempre que pode embarca em um avião rumo à Europa. O país favorito? Itália, por causa de seus antecedentes e “por ter os homens mais bonitos”. Sobre a vida amorosa prefere a discrição.

Vaidosa, Isa fez implante capilar e não deixa de usar bons cremes e produtos de beleza. Sua maior dificuldade está nos sapatos. “Adoro! Tenho vários, mas bico fino é um sofrimento para todas. Salto alto, então.” O armário de Isadora recebe constantemente novidades. Hoje, sentindo-se confortável na própria pele, a colega adora se presentear com bolsas, saias, vestidos e, é claro!, muitos sutiãs.

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