Entrevista: Adáurio e Hortência

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Ela: cidade              Ele: roça

Ela: filha única       Ele: primogênito com 8 irmãos

Ela: passeadeira       Ele: caseiro   

Ela: gulosa              Ele: comedido

Ela: perfeccionista   Ele: jocoso     

As características acima são de um dos casais mais queridos e com mais tempo de relação da nossa Ajustes: Hortência e Adáurio estão juntos há quase 50 anos. Será verdade, então, o dito popular “os opostos se atraem”?

Tudo começou em um colégio. Há algumas décadas, Adáurio Cabral lecionava Latim em uma escola de Niterói, no Rio de Janeiro. Professor rigoroso diminuiu bastante a nota de uma aluna porque ela cometera um erro (uma questão sobre a terceira conjugação latina). Com 8,5 cravado na prova, a moça acostumada a tirar 10 em tudo, foi tirar satisfação com o mestre. Sim, a primeira conversa dos dois foi uma queixa. Mas nessa época ficou tudo no zero a zero mesmo, ou melhor, no 8,5. O ano passou, as notas 10 apareceram. No segundo ano, a escola organizou um passeio às cidades históricas de Minas Gerais. Entre os professores escolhidos a acompanhar a turma estava o de Latim. Quem mais decifraria os escritos dos monumentos?

No trajeto de ônibus Rio de Janeiro – Ouro Preto, coincidentemente Adáurio sentou-se ao lado de Hortência. Pode-se dizer que gastou seu latim durante os mais de 500 quilômetros do percurso, a aluna embarcou na viagem e os dois desembarcaram na cidade histórica já como namorados com direito a mãos dadas e tudo. “Foi um escandalozinho, mas foi legal”, relembra Adáurio rindo.

A situação delicada foi enfrentada com um pouco de sorte e muita elegância. O namoro começou em outubro e no ano seguinte ele já não seria mais professor dela. Além disso, novembro, era época de provas finais apenas para quem não passasse por média e a aluna nota 10 já estava aprovada. Não encararam assim a situação dele de ter que lhe aplicar uma prova na condição de namorado (sorte a dele). O namoro não era escondido, mas no colégio comportavam-se apenas como aluna e professor.

Com pouco mais de um ano de namoro, ela estava prestando seu primeiro vestibular (para Música) e ao sair das provas ele a aguardava para irem distribuir os convites de casamento. Foi uma paixão arrebatadora, revela ela, e eles queriam se casar logo apesar dela ter apenas 18 anos, Cabral era dez anos mais velho.

Hortência, a mais falante do casal, acredita ser a diferença de temperamento algo mais fácil de lidar do que as rusgas que surgem pela maneira como cada um é criado. “Casamos apaixonados, mas a vida a dois na prática é desafiadora, principalmente no início”.

Com quase dois anos de casados, nasceu Rodrigo, mais tarde veio Natália. Cabral seguia com suas aulas em vários colégios, enquanto ela formava-se em Música e depois, Letras. Uma das colegas da faculdade falou sobre o concurso do TRT do Rio. Aprovada, conta que já na primeira semana de trabalho resolveu cursar Direito. Após formada soube do primeiro concurso doTRT capixaba, convidou então o marido para fazerem juntos o concurso daqui, uma vez que Adáurio (nascido em Cachoeiro de Itapemirim) falava da saudade de sua terra.

Ele trabalhou em vários setores do nosso Regional, sem nunca deixar de ser professor, pois não apenas salvava os colegas da ingratidão de uma vírgula mal posicionada, como ofertava uma verdadeira aula particular a quem chegasse com alguma crase mal colocada, por exemplo.

Hortência com sua dedicação e perfeccionismo natos, chamou a atenção do TST com seu trabalho na direção do Gabinete de Recurso de Revista e virou referência nacional no assunto. Ensinou outros Regionais a trabalharem melhor.

Aposentados há alguns anos, continuam muito ativos. O filho foi trabalhar em São Paulo, eles resolveram, então, ir para Brasília onde mora Natália (ela é juíza do TRT10). Mudaram de Vitória, mas mantiveram um apartamento em Guarapari. São avós de Arthur e Augusto – por parte do filho – e de Mariana, Fernando e Carolina, da filha.

Sobre a dinâmica de um relacionamento tão duradouro, contam que passaram momentos difíceis. Cabral não gostava de discutir a relação (as famosas DRs) e Hortência se ressentia. Nos momentos de maior desgaste até uma separação foi cogitada, mas o amor, o respeito e a sabedoria em lidar com as imperfeições inerentes ao ser humano, os manteve unidos.

Hortência revela sentir a maturidade como determinante para um maior equilíbrio da relação. Cabral hoje, além de não fugir mais das DRs, aprendeu a trazer flores para a esposa, mas ela ainda pontua que ele poderia ser mais romântico. Em compensação, o sexo melhorou, afirma ele “nem sei se deve colocar isso na entrevista, vão achar que é conversa fiada minha, ou vou começar a receber telefonemas” e cai na risada. Hortência sorri, sorri muito, chega a ficar rosada, mas por baixo do rubor há uma pele linda e brilhante. Entendedores entenderão.

A cultura e a arte são companhias eternas. O professor mantém o passatempo de toda uma vida: estudar. A Literatura nacional é uma paixão. Hortência faz pintura em porcelana e canta no Coral Plena Voz, patrocinado pela Ajustes. Ela destaca o bem-estar trazido pelo canto e a alegria em manter contato com os colegas. Também navega pelas redes sociais, das quais Cabral quer distância.

O casal gosta de bebericar um vinho no final da tarde e à noite assistem um pouco de TV e não, não brigam pelo controle remoto, pois gostam dos mesmos programas: entrevistas e documentários.

Se os opostos se atraem ou não, se as diferenças dificultam ou enriquecem uma relação não dá para responder, mas conversar com o casal Cabral foi a maneira que a Ajustes encontrou de homenageá-los e parabenizar todos os enamorados neste Dia dos Namorados. Sejam casados, namorados, juntados, ficantes, não importa como, nem com quem, o que conta é o sentimento.

Ao casal Cabral e a todos os apaixonados o desejo da Ajustes de felicidades ad infinitum.

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